Voltar atrás

"Pronto, agora estou por minha conta", foi a primeira e a única coisa que me ocorreu na cabeça assim que fechei a porta do carro. A partir dali, e pelopróximos meses, estaria entregue a mim mesma e para trás iam ficar todos aqueles que me protegiam até então. O carro arrancou da garagem e eu prometi a mim mesma que não ia olhar para trás. Mas não tive coragem de cumprir isso, não por mim, mas por ela. Por ela que ia ficar com o coração gelado nas mãos, por ela que iria viver o inverno mais rigoroso dentro dela, por ela que iria viver todos os dias na agonia, por ela, a minha mãe, irmã, amiga, a minha bússola. Por ela rompi a minha promessa e olhei para trás, levei a mão à boca e atirei-lhe o beijo maisincero que alguma vez dei. Nunca façam isto. Nunca olhem para trás, é o pior erro. Descobri, depois daquele momento, que olhar para trás é o principal mote para desistir. Todas as nossas forças continuam em frente, abandonam o nosso corpo e ficamos vulneráveis, frágeis, expostos ao medo que vai acabar por gelar todo o nosso corpo e fazer-nos questionar o que estamos a fazer. Até ali eu nunca ponderei desistir, apesar tudo o que surgia e me afastava de concretizar este sonho, eu nunca quis desistir. Mas naquele momento... naquele momento eu odiei-me por deixá-la para trás com todas aquelas lágrimas, devia tê-la deixado a sorrir, mas que palavras, gestos ou sorrisos preenchem o vazio deixado nos braços de alguém que ficou para trás? Quando a perdi de vista ficou tudo mais fácil, afinal aquele provérbio "Longe da vista, longe do coração." é verdade. O que os olhos não vem, o coração não pode sentir e dali em diante, na minha cabeça, só passavam imagens de momentos em que juntas gargalhamos. Até hoje a saudade nunca assolou o meu coração, talvez porque eu sei que quando voltar eu vou ver um sorriso no rosto dela e as lágrimas no meus olhos.

Sem comentários:

Enviar um comentário